T(t)ERRA / Cap. 2: A T(t)erra e as Cidades a Partir da Interdependência.

Terra: sf. O terceiro planeta do sistema solar, em ordem de afastamento do Sol, e no qual vive a espécie humana.

terra: sf. 1. Chão, solo. 2. A parte branda do solo 3. Lugar de origem 4. A parte sólida da Terra. 5. Terreno sem construções.

Fotos do livro T(t)erra, por João Pedro Terra.

(…) A T(t)erra é como uma grande rocha que gentilmente sustenta nossos corpos enquanto flutua na imensidão do cosmos. A T(t)erra é o nosso habitat, e por “nós”, além da espécie humana, me refiro a todos os seres que de seu ventre espontaneamente brotam: organizações de microorganismos, fungos, plantas, minerais e animais. Estes, por sua vez, constituem os ecossistemas naturais e os mantêm vivos a partir de sua interação.

A vida na T(t)erra é essencialmente baseada em relações de interdependência e conexão entre os seres que a compõem. Seus sistemas se sustentam a partir de dinâmicas de cooperação entre suas partes. O solo, os gases atmosféricos, a água, a luz solar e o calor, são os aspectos fundamentais dessa dimensão e mantêm todos os seres vivos, inclusive nós. Ao conjunto desses sistemas interdependentes, podemos atribuir a nomenclatura biosfera — esfera da vida. Nela residem os elementos indispensáveis para o constante desenvolvimento da mesma.

O sol provê energia para as plantas, o oxigênio, fruto desta troca, provê energia para os animais, e o gás carbônico emitido por eles retorna às plantas. Destas relações orgânicas, florescem sobre a T(t)erra complexas comunidades ecológicas, pautadas pela biodiversidade de suas espécies. Quanto mais diversas, mais mecanismos de auto-organização e defesa estarão disponíveis para a constante manutenção e preservação de cada ecossistema.

Nós, seres humanos, também somos frutos e agentes dos sistemas que se desenvolvem na T(t)erra. Ela, por sua vez, é sólida e maciça, sustenta nossos gestos e suporta nossos desejos de realização. Da T(t)erra extraímos nossa subsistência, sobre a T(t)erra caminhamos e nos relacionamos. Cultivamos e aprendemos a cultivar. A este complexo de relações dinâmicas, vivas e autônomas atribuímos o nome natureza, ou ainda, como é compreendido aqui, o reservatório das possibilidades infinitas. Nele, tudo é orgânico, impermanente e está em constante transformação.

Foto de Pedro Geraldo, para o livro T(t)erra.

A partir disso, podemos dizer que “a natureza é mais inteligente do que podemos supor. Afinal, ela também produz o cérebro humano, aquele que nos vangloriamos de ser um dos instrumentos mais perfeitos do cosmos”(WILBER, Ken. A Consciência Sem Fronteiras: Pontos de Vista do Oriente e do Ocidente Sobre o Crescimento Pessoal.)

Por meio da razão, temos a liberdade para optar, perante a natureza e seus ecossistemas, entre a preservação e a deterioração, entre a policultura e a monocultura, entre a cooperação e a competição, entre a inclusão e a exclusão. Em outras palavras, somos uma espécie em condições de criar laços ou fronteiras entre os seres, ampliar as formas de vida ou impossibilitá-las de se proliferar. Mas até que ponto temos este poder? Seríamos capazes de destruir a natureza ou apenas a nós mesmos? Existimos sem ela? Somos algo diferente dela?

Como vimos anteriormente, a concepção da T(t)erra como princípio vivo e nutriente “desapareceu por completo quando a revolução científica tratou de substituir a concepção orgânica da natureza pela metáfora do mundo como máquina” (CAPRA, 1982, p. 52). Optamos, então, por reconhecer a natureza como fronteira, algo diferente de nós a ser dominado e conquistado pela razão. Desta escolha, categorizamos seus sistemas orgânicos sob a forma de denominações e significados que não previram a relevância de suas dinâmicas para edificar os sistemas de relação humanos.

Deles, então, prolongaram-se formas de vida localizáveis no espaço e no tempo, que pouco a pouco delimitaram fronteiras imaginárias sobre a T(t)erra sem construções. Esta dualidade, podemos dizer, deu origem a paradigmas sociais e culturais baseados em princípios de separação, comparação, competição e exclusão, como pontua o filósofo e psicólogo Ken Wilber, desconhecidos pela natureza:

a natureza, ao que parece, desconhece esse mundo de opostos no qual as pessoas vivem. A natureza não produz sapos verdadeiros ou falsos, nem árvores morais ou imorais, tampouco oceanos certos e errados. Nem há traços na natureza de montanhas éticas e não éticas. […] Thoreau disse que a natureza nunca se desculpa; aparentemente, porque a natureza não conhece os opostos de certo e errado, e, assim, não reconhece o que os humanos imaginam ser erros. (WILBER, Ken. A Consciência Sem Fronteiras: Pontos de Vista do Oriente e do Ocidente Sobre o Crescimento Pessoal.)

Neste sentido, as cidades urbanas são relevantes e palpáveis evidências para o estudo das fronteiras que criamos para nós mesmos. Mas por que as cidades? Bem, na lógica dos ecossistemas urbanos, os sistemas da T(t)erra viva moram debaixo do asfalto morto. Nós não os vemos, com eles não convivemos, mas sobre eles edificamos ao passo que silenciamos sua presença. Camada sobre camada, tijolo, concreto, vergalhões e argamassa, erguemos e pavimentamos as formas de vida que escolhemos para nós.

Em outras palavras, a natureza, seja na forma de plantas e minerais ou nas demais manifestações orgânicas do próprio ser humano, além da razão (seus sentimentos, seu espírito, sua intuição e o seu próprio corpo), foi suprimida e/ou se tornou meramente recurso. Ou seja, a ascensão da vida urbana moderna foi e continua sendo sustentada prioritariamente pela perspectiva analítica. De um lado, então, a racionalidade que se acredita independente e autônoma, interage sobre a T(t)erra a partir de uma superioridade auto proclamada. E de outro, a T(t)erra, absorta em sua silenciosa inteligência, acolhe, impassível, nossas escolhas e modos de nos relacionar sobre ela.

Foto de Pedro Geraldo, para o livro T(t)erra.

Neste caso, podemos concluir que os jogos de linguagem que optamos por nutrir atualmente, estão estruturados sobre estes antigos alicerces: lineares e aparentemente imutáveis, que por não perceberem a T(t)erra a partir de sua complexidade natural, acabam por negar a interdependência entre as suas partes — inclusive as que compõem o próprio ser humano. Estas escolhas fundamentam os ecossistemas urbanos que formam as cidades, sua paisagem cotidiana e as formas de vida que nela se desenvolvem. As interações humanas, por fim, expressam-se delimitadas por caminhos pré estabelecidos e pouco diversificados, que contrariam os princípios de relacionamento da própria T(t)erra que os sustentam.

Com relação a isto, por exemplo, já em 1854, as sabedorias das tribos indígenas Suquamish e Duwamish, situadas no atual Estado de Washington, EUA, nos alertavam sobre os impactos originados pela ilusão de que dominamos as livres, múltiplas e autônomas expressões da natureza. Nessa época, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce (1804–1869), desejava comprar as T(t)erras habitadas pelos indígenas, oferecendo-lhes em troca uma reserva. Em resposta, Cacique Seattle, fez um pronunciamento histórico que perdura até os dias de hoje e representa um marco mundial da consciência ecológica. Nele, Seattle enfatizou:

a [T(t)erra] não pertence aos humanos, humanos pertencem a [T(t)erra] […]; todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a [T(t)erra], recairá sobre os filhos da [T(t)erra]. O homem não tramou o tecido da vida, ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo. (Cacique Seattle. A Carta do Cacique Seattle, 1984.)

Neste sentido, podemos incluir referência similar a partir de tradições e formas de vida milenares nutridas por comunidades latino americanas. Na cosmovisão ancestral amazônica, por exemplo, a T(t)erra é concebida como um território vivo, da qual somos partes inextricáveis. Nas tradições desses povos, jogos de linguagem são estabelecidos a partir de uma visão integral e interdependente, guiadas pela consciência de que criar e cultivar são sinônimos. Ou seja, constituem uma ação recíproca e incerta, na qual aquele que cria é simultaneamente criado no âmbito desta incerteza; as comunidades criam a natureza com o reconhecimento de que são/serão criados e sustentados por ela.

A partir dessas perspectivas, diferentemente do que razão cartesiana poderia supor, percebemos que ao afastarmos a natureza não ferimos e enclausuramos exclusivamente uma presença estranha e exterior à nossa, mas também e principalmente a nós mesmos, por negarmos nosso vinculo vital com a T(t)erra e nossa própria estrutura orgânica de ser humano. Neste processo, podemos reconhecer uma tentativa demasiadamente humana de afastar de nossas formas de vida, as incertezas inerentes às dinâmicas da T(t)erra e seus sistemas.

A razão possui uma tendência de conceber e construir a realidade a partir uma linha reta e precisa que está em constante crescimento e progresso. No entanto, os sistemas orgânicos nos chamam atenção para os ciclos caóticos e imprevisíveis, dos quais não podemos extrair conclusões absolutas. Seríamos capazes de nos relacionar a partir desta consciência? O que mudaria se aprendêssemos a acolher a incerteza e a impermanência como nossas principais características?

Sendo assim, seguindo o cerne desta investigação, proponho alguns questionamentos que podem nos auxiliar no aprofundamento de nossas reflexões, como por exemplo: poderemos nos relacionar de forma consciente e harmoniosa, se erguemos nossas próprias estruturas a partir de fundamentos incoerentes às nossas intenções? Seriam os ecossistemas que criamos capazes de sustentar e permitir o florescimento dos potenciais de interação entre os seres humanos e a natureza? Seria possível vislumbrar e propor novas e mais coerentes formas de relacionamento em meio a este contexto que, como vimos, percebe o todo de maneira limitada? Poderíamos transformar os jogos de linguagem estabelecidos, com a intenção de estimular a autonomia de nossas percepções, aprofundando a nossa liberdade de escolha e de auto gestão? Quais são os aprendizados que deixamos de perceber quando nos separamos do todo?

Essas indagações são fundamentais para que nossa autonomia e liberdade de escolha sejam exercidas plenamente, permitindo que novos padrões de interação, mais coerentes com nossa atual consciência, possam ser propostos e vividos. Ainda assim, é possível reconhecer que este processo desafia profundamente a vontade humana, pois os ecossistemas que pavimentamos e habitamos hoje manifestam-se em escalas monumentais, em diversas e complexas camadas. As construções arquitetônicas, por exemplo, edificadas em sua grande maioria a partir de processos que não consideram o impacto sobre a T(t)erra, seja pela desmedida extração de recursos naturais, pela emissão de gases tóxicos, ou pela enorme produção de resíduos, não só tentam controlá-la, como englobam nossos corpos e alteram por completo as formas de vida que nelas se desenvolvem diariamente.

Foto de Pedro Geraldo, para o livro T(t)erra.

Desse modo, podemos concluir que esta faceta tridimensional que delimita nossa atual realidade pode facilmente fortalecer a ilusão da permanência e da estabilidade de jogos de linguagem obsoletos e, junto a eles, a sensação de que somos impotentes perante a necessidade iminente de repensá-los. No entanto, apesar de nosso atual ecossistema nos fornecer uma imagem superficial e limitada do todo, podemos vislumbrar outras possibilidades de vida a partir de brechas produzidas pelos próprios padrões de interação que são nutridos dentro deles. Nas cidades, por exemplo, além das monumentais residências que silenciam a T(t)erra e determinam os espaços das relações, existem igualmente milhares de terrenos baldios, esquecidos e inabitados, para os quais não existem atividades ou formas de vida específicas e ordenadas.

A estes espaços vazios, o arquiteto catalão Ignasi de Sola-Morales atribuiu o termo terrain vague. Em francês, terrain pode ser interpretado, em primeira instância, como uma extensão de solo edificável. Porém, segundo Morales, “a palavra terrain francesa se refere também a extensões maiores, talvez menos precisas; está ligada à idéia física de uma porção de terra em sua condição expectante”(MORALES, Ignasi de Sola. Terrain Vague). Já a segunda palavra que forma a expressão terrain vague, se interpretada a partir de suas raízes latinas, como derivado de vacuus, temos o sentido de vago, vazio. Estes, ao mesmo tempo que denotam ausências, nos convidam a apreciação do sentido de liberdade, de abertura de novos caminhos, da possibilidade de experienciar outras formas de relação ainda não estabelecidas.

Nestes contextos, à medida em que a presença humana se torna ausente, temos a oportunidade de apreciar a impermanência de nossas construções, como também, compreender mais profundamente a pulsão de vida inerente à T(t)erra. Afinal, enquanto as edificações abandonadas se deterioram, a natureza — fauna e flora — adquirem proporções tão monumentais quanto elas. Neste processo, raízes rompem o solo e confundem-se com vergalhões, enquanto enormes blocos de concreto fragmentam-se e adquirem a forma de ruínas, que pouco a pouco são incorporadas pelas manifestações dos sistemas vivos.

Foto de Sofia Tomic, para o livro T(t)erra.

Em paisagens incertas e impermanentes como essas, em que podemos nos aproximar do autêntico movimento da T(t)erra que nos sustenta, vislumbro a infinidade de jogos de linguagem que sobre a ela foram edificados até hoje. Quantos deles permanecem entre nós? Quantos simplesmente foram transmutados sem deixar rastros? A estrutura viva da natureza nos oferece sempre novos espaços de aprendizado, para que possamos cada vez mais nos aproximar de quem somos agora.

Neste sentido, recordo um dos primeiros conselhos do poeta Rainer Maria Rilke (1875–1926) oferecido ao jovem Franz Xaver Kappus (1883–1966), um convite para uma sincera aproximação da natureza, em busca de si mesmo: “aproxime-se da natureza e procure, como se fosse o primeiro homem, descobrir o que vê, vive, ama e perde” (RILKE, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1984, 12ª edição, p. 23). Em outras palavras, a natureza não apenas preserva e sustenta os seres vivos por conter todos os elementos biológicos para tal feito, mas também por ser este espaço vivo que nos convida a reinventar a vida e a nós mesmos a todo instante.

Neste agora infinito, reconheço as diferenças entre modos de vida orgânicos e inorgânicos. Quando uma folha cai sobre a terra, com o tempo, transforma-se na própria terra e contribui para que outras formas de vida possam florescer junto a ela. Por outro lado, quando uma planta cai sobre o concreto ou asfalto, não existe solo fértil para ser nutrido. Nesta apreciação, é importante recordar que a base que sustenta os ecossistemas naturais é a interdependência entre as partes que os compõem:

Um ecossistema [orgânico] não gera detritos. O princípio ecológico “detrito é igual comida” significa que — para um sistema […] ser sustentável — todos os produtos e materiais manufaturados, como também os detritos gerados no processo de manufatura, têm que acabar provendo alimento para algo de novo. (CAPRA, 2006, p. 54)

Logo, podemos concluir que o ciclo de resíduos produzidos neles e por eles é espontaneamente convertido em alimento para nutrir os demais seres vivos de cada ecossistema. Não digo que este processo aconteça em plena harmonia e equilíbrio, mas, que na própria dinâmica espontânea e caótica da natureza “toda luta acontece […] dentro de um contexto mais amplo de cooperação”. (CAPRA, 1982, p. 25)

A partir dessa consciência, por fim, podemos concluir que estivemos priorizando jogos de linguagem que interrompem os ciclos de interdependência, por não serem capazes de gerar formas de vida que auto-regulem os sistemas, por meio do acolhimento de seu processo orgânico de deterioração. Em outras palavras, precisamos aprender como nos relacionar e estabelecer acordos a partir da consciência de que as ruínas, as incertezas e a impermanência são aspectos inerentes à realidade que compartilhamos. Afinal, como podemos incorporá-los em nossas vidas e relações como potenciais de nutrição, transformação e florescimento?

Enfatizo, mais uma vez, o convívio mais próximo com a T(t)erra e suas dinâmicas pode atuar como fiel aliado no processo do reconhecimento e valorização da impermanência, da biodiversidade e da interdependência para reestruturarmos nossas formas de vida a partir dos novos paradigmas. No entanto, para que possamos florescer nesta consciência, precisamos incorporá-la em nosso convívio diário. Sendo assim, no próximo capítulo pretendo compartilhar e nomear possibilidades reais de experienciar nossas relações a partir dessas novas perspectivas, tendo como ponto de sustentação a educação e a arte.

(Continua…)

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Luïza Luz

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